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Jornalismo Cultural

“Nenhuma ficção supera a realidade”

José Maschio

Por Vitor Struck

Nesta terça-feira o jornalista e escritor José Maschio lança seu segundo livro. Depois de narrar um grande esquema de corrupção no Mato Grosso em “Crônica de uma Grande Farsa” mais de 30 anos de jornalismo se fazem presentes, também, no seu primeiro romance. “Tempos de Cigarro sem Filtro” (Kan) retrata uma época “áspera, difícil, e sem filtro sintetiza isso, é direto, rude”. “Ganchão” narra fatos do período em que o Brasil era governado por Emílio Médici na perspectiva de pessoas simples: um peão, uma lavadeira de roupas, e dois garotos igualmente miseráveis.

Para o autor, os moradores deste Brasil sem filtro pouco influenciaram na construção do imaginário coletivo sobre o regime militar. “E como eu sou desse meio, vivi isso na minha adolescência, resolvi contar essa história (..) é importante relembrar até porque tem muita gente achando por ai que intervenção militar é a solução.”

Com o passar da vida os anos de desconfiança, violência e medo dos jovens Ruço e Lozinho tomam rumos diferentes. Ruço torna-se um militante de esquerda e dedica-se a lutar contra a ditadura enquanto Lozinho ganha a vida em bares jogando sinuca.

Lendo os primeiros capítulos dá pra dizer que em “Tempos de Cigarro sem Filtro” há, também, a militância em favor da oralidade, a busca por um sotaque próprio dos becos, ruas escuras e bares pulguentos, o que garante uma narrativa cem por cento brasileira. “A gente tem uma coisa, que eu cito sempre o Roberto Gomes em seu livro ‘Crítica da Razão Tupiniquim’, que quando a gente ‘tá’ entre amigos a gente fala de uma forma tranquila, oral, a oralidade. De repente você vai escrever ou falar em público, você assume uma postura formal e fica distante. Eu comparo esse processo civilizatório a uma questão de traje, usar terno num país tropical.”

Tais trejeitos deste Brasil, assim como dos personagens, são realidade do início ao fim, segundo Ganchão. Eles existiram de verdade. O romance foi escrito com um embasamento de quem viveu o período mais duro, ainda jovem no interior de São Paulo e, anos mais tarde, com a missão de investigar e narrar o absurdo, fatos importantes como repórter investigativo da Folha de São Paulo em todos os estados brasileiros. “Só não conheço o Acre!”

Por conta disso que experiências não faltaram para uma gestação sadia de “Tempos de Cigarro sem Filtro”. O próximo livro, voltado para estudantes de jornalismo, já está no gatilho, mas ainda sem data de lançamento. O que se pode prever são boas doses de vida real. Como me disse categoricamente o velho repórter: nenhuma ficção supera a realidade.

Serviço:
Lançamento em Londrina:
Local: SESC Londrina Cadeião (Rua Sergipe, 52)
Dia: 22 de agosto (terça-feira)
Hora: 19h30
Preço: R$ 30,00