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Jornalismo Cultural

A cultura, o trabalho e a luta contra o machismo: jornada tripla das mulheres na cultura

Mulheres

Na segunda reportagem da série Mulheres em Movimento, abordamos a atuação feminina na cultura. Foi em Pernambuco que aflorou o Maracatu. Exalando a espiritualidade do Candomblé, os tambores marcam o ritmo forte do estilo musical cuja raiz se finca na resistência e ancestralidade. Porém, até 15 anos atrás, muitas nações de Maracatu ainda proibiam que mulheres tocassem o tambor. Ter uma mestre mulher era praticamente impossível. Mas graças ao movimento Baque Mulher esse cenário tem sido revertido. Em Londrina, Luiza Braga participa de uma das sedes do projeto, que já se encontra em mais de 20 cidades por todo o país.

Por Bruna Akamatsu e Tamiris Anunciação
Fotos Bruno Codogno

“As mulheres têm se fortalecido, enfrentado vários padrões de gênero que existem no Maracatu e na própria religião. Você começa dando um tambor e a mulher já vai querer ser respeitada, já vai querer cantar sobre a força dela; dizer não à violência, repensar seu lugar no mundo” comemora Luiza. A discussão sobre as mulheres nos espaços de cultura é essencial no Brasil onde, segundo pesquisa do Datafolha de 2018, as mulheres têm maior interesse em atividades culturais do que os homens. Mas será que elas são protagonistas nessas atividades?

Luiza Braga, produtora cultural
Foto: Bruno Codogno

A cultura de resistência                                     

A cultura pode ser entendida como práticas dotadas de sentido e valores, segundo o sociólogo e teórico cultural Stuart Hall. Mas sua natureza simbólica não pode ser desvinculada da estrutura de poder de uma sociedade. Luiza Braga conta sobre a natureza viva da cultura de resistência no podcast de Tamiris Anunciação. Essa natureza é o que permite que a cultura extrapole a estrutura de poder vigente e seja uma ferramenta de libertação. “A gente vive num espaço globalizado em que se usa a cultura como forma de legitimação de poder. Mas se por um lado a gente tem uma cultura opressora, também temos uma cultura que busca resistência contra as formas de opressão” conta Luiza.

Nesse sentido, há potencial na cultura para garantir a sobrevivência da história, dos valores e da existência de grupos sociais que sofrem invisibilidade. Dentre esses grupos, estão também as mulheres. Além das integrantes do projeto Baque Mulher, muitas outras têm lutado por espaço e reconhecimento, como é o caso da cantora e rapper Amanda More. “O preconceito existe no inconsciente das pessoas, elas indagam por que a gente se veste ou se porta de tal forma. Nosso maior trabalho é desconstruir nas pessoas aquilo que foi colocado ao longo dos anos, falando que mulher não pode isso, não pode aquilo”. Amanda conta que hoje em dia as mulheres têm participado cada vez mais do rap, o que diminui as situações machistas. Mas para ela, o percentual ainda é pequeno.

A resistência na cultura

Além de lidar com o machismo, as mulheres também enfrentam desafios com relação à falta de estrutura. “O maior desafio é se sustentar. A música é um sonho para mim, mas acho que ela está um pouco distante de ser um negócio e eu conseguir ter retorno financeiro”, lamenta Amanda que trabalha como arquiteta e está concluindo seu trabalho de conclusão de curso. Apesar de ter um EP previsto para o final do ano, ela só conseguiu escrever uma música até agora, por conta das outras obrigações. “Você precisa ter dinheiro para sustentar a vontade de fazer clipe, fazer música” relembra Amanda.

Amanda More, rapper
Foto: Bruno Codogno

Além de coordenar o projeto de Maracatu, participar do podcast Lado B(lack), cantar na Fugitivos na Cuíca, produzir o projeto Quizomba e presidir o Conselho Municipal de Cultura, Luiza tem um emprego para conseguir se sustentar. Ela expressa preocupação com relação à saúde das pessoas que trabalham com cultura. “Por que a gente não oferece uma estrutura de subsistência para essas pessoas?  Como a gente cuida das pessoas que estão na lida por esse manter cultural? A gente precisa batalhar para dar uma segurança para que essas pessoas não tenham que se tornar mártires, no sentido político de morte, por conta das perseguições que acontecem. Mas também de um mártir cotidiano que vive cansado, sem grana, sujeito a ansiedade e depressão”, relembra Luiza.

Acompanhe o podcast: