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Jornalismo Cultural

Entrevista exclusiva: como surgiu o Psicodália

Psicodália

Mais de 6 mil pessoas são aguardadas para passar o próximo carnaval em meio a manifestações artísticas, trocas de experiências e shows “a perder de vista” no festival Psicodália, realizado em Rio Negrinho-SC. A menos de três meses do evento e já se preparando para a cobertura especial de tantas atrações, a equipe da Alma Londrina Rádio Web conversou com Alexandre Osiecki, um dos fundadores e organizadores do Psicodália. Confira o bate-papo e ouça o podcast!

Por Eduardo Calliari

Fotos Nicolas Pedrozo Salazar

Rádio AlmA – Como as coisas foram mudando ao longo dos anos pra vocês, desde a primeira edição em Angra,  até os dias de hoje?

Alexandre Osiecki  – É, a gente começou assim como uma festa de amigos, juntando as pessoas pra fazer som, que tinham suas bandas. A gente não tinha lugar pra tocar e resolveu fazer um festival pra poder ter um palco pra tocar. E no decorrer dos anos isso foi se tornando uma atividade maior, a gente foi levando isso como trabalho…eu sempre tive o intuito de tocar, eu sou músico, sou compositor, mas durante esses anos todos o festival foi indo pra frente, e a minha parte na música foi ficando em segundo plano. A gente vai dando mais chance pra o que está dando mais certo, então a gente foi indo pra esse lado. É claro que no começo a gente não tinha nenhum tipo de pretensão de ser um festival com tantas mil pessoas, eu nem sabia o que era um festival direito, nunca tinha ido em um festival quando a gente fez o primeiro, sabe? Foi uma coisa bem na louca e a gente foi crescendo até por necessidade mesmo, porque, fazia uma edição, aí vendia um tanto de ingressos e faltava um tanto pra pagar os custos… aí precisava fazer mais uma edição pra cobrir os furos da primeira… e sempre foi girando dessa forma, a gente sempre crescia por necessidade mesmo, não foi nem por “querer mais”, a gente precisou crescer pra conseguir bancar. Hoje as pessoas olham e falam “nossa, o festival tá grande” e tal, mas…foi muito perrengue pra chegar até aqui, sabe?

Rádio AlmA  – O Psicodália certamente demanda trabalho durante o ano todo, né Alexandre, como funciona esse processo de organização do festival?

Alexandre Osiecki  – Nesse último festival (2017), a gente terminou numa semana e na outra semana  já estava falando com o pessoal que faz a arte, falando com o pessoal da fazenda, já articulando pra começar o próximo.  Porque não dá pra parar, né? É muito detalhe, quanto mais tempo a gente tem, mais a gente consegue deixar redondinho… e nesse processo todo tem bastante gente que trabalha na produção, durante o ano todo. Pra você ter uma ideia, a gente está nessa correria agora pro festival de 2018 e pra gente não se atropelar quando acabar o festival e a gente já está começando a articular algumas correrias do festival de 2019 também, sabe? Porque a gente termina o festival assim às vezes esgotados, cansados, então a gente já está encomendando a arte de um outro ano, já estamos montando as equipes que vão trabalhar no outro ano, a gente está dando um passo a mais, pra chegar no festival e estar tudo certinho.

Rádio AlmA  – O Psicodália começou justamente com o intuito de dar espaço à bandas autorais (a princípio nacionais, depois foram-se abrindo as fronteiras para bandas internacionais) mas sempre buscando a mescla entre novos artistas e nomes já consagrados. Como é feita a escolha das bandas para cada festival?

Alexandre Osiecki   – Bom, a gente faz a escolha das bandas por diversos meios. Primeiro que a gente tem  os nossos sonhos, as bandas que a gente escutou a vida inteira e que é um sonho de ver o cara tocando no nosso palco, então são sempre as primeiras escolhas.  Mas nós escutamos bastante o público também, a gente sempre está de olho no que o pessoal tá pedindo ali nas redes sociais e está sempre participando de festivais também, esse ano eu fui para nove festivais já e estou indo agora semana que vem para uma feira de música na Colômbia e ainda vou pegar mais uns dois festivais esse ano. E eu vou justamente pra isso, pra ver as bandas, é a forma que eu considero mais interessante de escolher banda,  vendo o show. É mais interessante do que escutando CD ou assistindo vídeos.  Vendo o show você realmente consegue entender o que é a banda, qual é a força da banda.

Rádio AlmA  – Você pode nos falar um pouco sobre os nomes já confirmados para 2018 e o que mais vem por aí?

Alexandre Osiecki – A gente começou já com uma pedrada, lançamos de cara já o Jorge Ben Jor e na sequência fomos trazendo nomes que muita gente já pedia há muito tempo, Arrigo Barnabé, o Boogarins, Bexiga 70… e tem muita coisa ainda pra lançar, algumas bandas de porte grande e um monte de banda independente, algumas bandas da América do Sul, algumas bandas de países vizinhos que a gente está tentando articular para que eles venham tocar aqui. A gente está com alguns contatos legais de outras festas que acontecem no carnaval, no Brasil, por exemplo, o Rec-Beat lá em Recife, o pessoal de Minas faz um carnaval legal… então a ideia é trazer esses grupos da América do Sul para que façam o Psicodália e que façam outros shows na mesma turnê, para baratear e também para fazer o pessoal rodar, então a gente está com esse foco também dar uma expandida para América do Sul. Tem tanta coisa boa aqui nos nossos países vizinhos! A gente trouxe alguns artistas dos Estados Unidos já, da Europa, mas recentemente a gente está abrindo mais essa possibilidade pra artistas da América do Sul mesmo, porque acho que vale a pena a gente valorizar quem está perto e também fica muito barato para trazer esses grupos por questão de passagens aéreas, visto de trabalho (no Mercosul não é necessário) e tem muita coisa boa, vale muito a pena.

Rádio AlmA  – Você pode nos falar um pouco sobre as demais atividades oferecidas em 2018, durante os dias de festival?

Alexandre Osiecki – A gente está com uma média de 60 oficinas de arte, cultura, abrangem uma variedade grande de assuntos e cada ano a gente tem um número maior de participantes, no ano passado a gente teve uma média de 4.000 inscrições, imagina, tinham 6.000 e poucas pessoas no festival, ou seja, as pessoas vão pro festival para ver música, mas também pra desenvolver alguma coisa, pra conhecer…e as oficinas são muito legais porque rola uma troca não só de conhecimento, mas de vida mesmo, as pessoas interagem, se conhecem, criam vínculos, criam turmas, é um espaço muito legal. Cada vez mais a gente quer desenvolver isso, porque a gente vê que é saudável, as pessoas passam o dia com a cabeça na arte, não é só folia e perda de tempo, tem conteúdo isso tudo. A gente também está cada vez mais aperfeiçoando a nossa parte de recreação infantil pra atender os pais que levam as crianças. Em um ano a gente teve 20 crianças na recreação, no último ano a gente já teve mais de 50 crianças participando da recreação infantil. Isso é muito gostoso, porque aonde tem criança tem respeito, tem alegria, as pessoas se comportam de uma maneira mais pura, é muito bom o espírito que gera ter crianças em volta. E esse ano estamos também desenvolvendo um pouco mais atividades para adolescentes, a gente viu que estava precisando. Os adolescentes ficavam meio perdidos, tinha coisa pra criança e tinha coisa pra adulto, então a gente vai propor atividades para adolescentes, gincanas, pra atender todo mundo mesmo. Pra ter um evento mais abrangente possível, atendendo todos os público, todas as idades.

Rádio AlmA  – A cada ano o Psicodália atinge proporções maiores, tanto em estrutura quanto em público participante. Até onde vai o Psicodália? Qual é maior desafio em organizar um festival desse tamanho?

Alexandre Osiecki – O maior desafio com certeza é a gente conseguir pagar o evento, né? A gente não tem patrocínio, não tem apoio. Já tentamos uma época buscar, mas nunca deu certo e a gente desistiu. Então a gente depende de vender um número X de ingressos para poder custear o evento. É claro que a gente já tem um nome, as pessoas querem ir ao festival, mas a cada ano o Brasil está de um jeito, né? Então as pessoas estão com menos dinheiro, tem muita gente desempregada e esse é o maior desafio, a gente conseguir custear o festival, porque se faltar um número pequeno de participantes a gente já não chega no valor que a gente precisa, já tem que sair correndo atrás de empréstimo, deixar alguém esperando pelo outro ano…
É claro que nos últimos anos não têm ocorrido, a gente já está com um formato bem definido, ano passado a gente teve os ingressos esgotados 30 dias antes do evento. Trinta dias antes já não tinha mais ingressos pra vender! Então isso deu uma super-tranquilidade pra gente, porque em 2016, por exemplo, não aconteceu, a gente chegou no festival ainda tendo que vender ingresso, mas foi, deu tudo certo.

E pra onde a gente vai? Não sei rapaz, porque ó…tem cada vez mais pessoas querendo participar, artistas procurando mais, cada vez artistas maiores já conhecem aqui…esse ano eu estive no Rock in Rio e tinha um pessoal que trabalha com a gente no Psicodália trabalhando no Rock in Rio também. Então a gente conseguiu acesso aos produtores, de leve, e eu vejo que o Psicodália está com um nome muito respeitado no meio cultural, produtores já sabem do festival e isso dá uma facilidade muito grande pra gente negociar, os artista acreditam, dão crédito pra gente, sabem que não é perrengue, que vão chegar e vai ter palco bom, vai ter som bom, vai ter luz, vai ter público.

E assim, a gente está ali na Fazenda Evaristo e a gente está no limite de público, a gente não vai aumentar o público com relação ao que foi no último festival em 2017, só se de repente a gente ampliasse dentro da fazenda, outras áreas, a fazenda é enorme, né? Mas para 2018 a gente está mantendo o mesmo público da última edição, não pensamos nesse momento em aumentar o público. O que a gente tem o sonho é de talvez fazer mais um festival em outra época do ano, talvez em algum outro lugar, mais pra cima do Brasil, talvez pro sudeste…não sei, tem várias fazendas, eu já estive visitando alguns lugares, quem sabe no futuro a gente consiga articular pra fazer um outro Psicodália, em um outro momento, lá pra cima…
Porque já tem esse público que já conhece, já tem vontade de vir, só que a gente mora em um país enorme e esse público muitas vezes não consegue vir pro Sul, é longe, é caro, o transporte é caro… mas estamos aí, estamos lutando pra fazer a arte, a cultura decolarem, o Brasil merece, tem artistas maravilhosos nesse país, agora principalmente está surgindo uma quantidade muito grande de artistas talentosíssimos e a gente tem que dar valor pra isso e continuar a nossa luta pela arte e pela cultura, que é o nosso foco maior.