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Jornalismo Cultural

A comunhão de Oração pelo fim do mundo

Por Bruna Miyuki

Fotos Fábio Alcover

Mais que oportuno, o retorno de Oração pelo fim do mundo é necessário. A forma vigorosa e delicada da experiência, promovida pelo Ballet de Londrina da Funcart (Fundação Cultural Artística de Londrina), provoca uma imersão densa na existência individual e coletiva. O retorno do espetáculo em uma mini temporada de três dias (10, 11 e 12 de maio) é uma oportunidade de catarse única diante do cenário árido e violento que testemunhamos atualmente.

A aflitiva comunhão

Antes do início do espetáculo, o público se espalhava em conversas difusas pelo pátio da Funcart. O barulho constante rasgava a brisa fresca da noite do primeiro dia de apresentações. Seguimos todos por um corredor estreito até uma sala onde três fileiras extensas de cadeiras ficavam de frente ao local da apresentação. De súbito, um silêncio absoluto preenchia o lugar e raros eram os espectadores que respiravam diante da tensão constante e magnética do espetáculo.

Embora tenha sido produzido pela primeira vez em 2017, Oração pelo fim do mundo transcende a temporalidade ao resgatar temas que infelizmente persistem. A violência contra a mulher,  a indiferença com o sofrimento do outro e a perversão dos princípios de muitas religiões em nome de um ódio incompatível são alguns deles. A sensação que se tem durante o espetáculo é a de ser englobado por um sofrimento que nos é inerente. O sofrimento diante do todo, diante do outro, diante de nós.

Cada detalhe é destrutivo. A expressividade e técnica sublime dos 12 bailarinos, a iluminação que ressalta uma angústia barroca, a trilha que pesa cada movimento vigorosamente executado, os sons dolorosos do baque dos bailarinos contra o chão. Cada fragmento compõe a amálgama não apenas de uma época, mas da própria existência humana e sua violência trágica.

Definido pelo diretor Leonardo Ramos como “um grito de descrença pelo que resultou da humanidade”, Oração pelo fim do mundo é precisamente um grito que relembra a falta de sentido da nossa existência, a angústia e a impotência humana. Mais do que um espetáculo, trata-se de uma experiência de comunhão.

Em certos momentos, deseja-se que essa comunhão seja eterna e a apresentação dure para sempre. Em outros, a aflição tamanha nos faz desejar que a experiência acabe logo. A capacidade de tradução da vida humana sem que uma palavra sequer seja dita e em tão pouco tempo de apresentação – aproximadamente uma hora – é arrebatadora. Oração pelo fim do mundo também nos mata um pouco, mas na melhor das formas.

Serviço: 

Horários: Sábado e domingo (11 e 12 de maio) às 20 horas

Local: Sala Marcos Leão – Funcart (Rua Souza Naves, 2380)

Ingresso: Pague quanto puder ou quiser, com valor indicativo de R$20

Bilheteria aberta nos dias de apresentação a partir das 19 horas

Reservas pelo whatsapp (43) 99168-3972

Classificação indicativa: 16 anos

 

Foto: Fábio Alcover