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Jornalismo Cultural

A arte instrumentalizada pelo Nazismo

“Hitler foi o diretor, cenógrafo e ator principal do Terceiro Reich”. É sobre essa perspectiva que o documentário Arquitetura da destruição (1989), do cineasta sueco Peter Cohen, aborda o Nazismo na Segunda Guerra Mundial. O filme conta a história dos conflitos através da narrativa de purificação da arte que os alemães queriam resgatar, para utilizá-la como instrumento de dominação e manipulação na pintura, escultura, cinema e arquitetura.

 

Fotos e Texto por Leonardo Bueno

 

A sala de exposições temporárias do Museu Histórico de Londrina assistiu atônita ao documentário de aproximadamente duas horas. Dentre os espectadores, estavam jovens e idosos interessados sobre a temática, que, ao final da exibição, rechearam o debate com perguntas e apontamentos pertinentes à discussão. A mesa de debate foi mediada pelo professor de História Contemporânea da Universidade Estadual de Londrina (UEL), José Miguel Arias Neto, e composta pela professora e pesquisadora do Grupo de Trabalho Estudos Culturais, Política e Mídia da UEL, Raquel de Medeiros Deliberador, e pelo professor de Teoria da História da mesma universidade, Marco Antônio Soares.

Cinema e reflexão

O Cine Debate Londrina nasceu através da colaboração entre o Movimento de artistas de Rua de Londrina (MARL) e o Coletivo Mobiliza Londrina, diante do polêmico discurso que o ex-secretário da cultura Roberto Alvim enfiou goela abaixou da sociedade brasileira. O objetivo dessa e de futuras ações do grupo é fomentar a discussão sobre democracia e atuar na manutenção da mesma. Ouça abaixo a entrevista completa com o professor José Miguel Arias Neto, mediador do debate, que também faz parte do coletivo Mobiliza Londrina.

 

 

O discurso do ex-secretário

Não foi apenas o discurso do Ministro da propaganda Nazista, Joseph Goebbels, que o ex-secretário da cultura Roberto Alvim plagiou. As referências ao Nazismo dentro de seu vídeo vão desde a ópera escolhida por ele – que teve como genitor Richard Wagner, o qual Adolf Hitler tinha profunda admiração – até sua postura, o quadro do presidente atrás de sua mesa, seu cargo e o mais assustador, o contexto em que vivemos. Ainda que o ex-secretário tenha sido demitido e condenado por boa parte da sociedade, é inegável que esse vídeo, nesses moldes, nessa conjuntura política, é uma ameaça escancarada à democracia.

Da esquerda para a direita, o mediador da roda de conversa Profº José Miguel Arias Neto, a Profª Raquel Deliberador e o Profº Marco Soares. 

As coincidências da atualidade

O documentário exibido no Museu Histórico de Londrina mostra como a sociedade alemã dos anos 30 pôde ser manipulada por uma propaganda massiva, se valendo da arte pura como instrumento, negando qualquer outro tipo de expressão artística que não fosse de acordo com os padrões estabelecidos pelo arianismo nazista. Segundo a professora Raquel de Medeiros Deliberador, a propaganda nazista se estruturou em duas fases: A primeira foi a de enaltecer a figura do líder, transformando-o em mito e a segunda foi a difamação do inimigo. Tudo isso de forma a vincular as ideias aos símbolos e promover sua repetição compulsiva, como a saudação nazista, por exemplo. Além disso, “O sentimento é um ponto crucial para a propaganda política e geralmente é um sentimento de indignação que serve como bode expiatório pra passar essa raiva da sociedade”, comenta Deliberador.

Entretanto, as coincidências com a nossa realidade não param por aí. Para o professor Marco Antônio Soares, são muitos os elementos que estavam presentes na ascensão do nazifascismo na Alemanha e que podem ser identificados na sociedade de hoje, como por exemplo, o horror às artes tidas como ilegítimas pelo governo, como é abordado no documentário. “Pessoas comuns que nunca ligaram para arte se colocando frontalmente contra diversas linguagens artísticas, não por terem senso crítico, mas porque vem emanado de quem está exercendo o poder de que algumas artes são legítimas e algumas devem ser execradas”.

Ainda, é possível identificar o obscurantismo como elemento semelhante ao da Alemanha nazista. Intelectuais sendo considerados pessoas perigosas, universidades sofrendo desmontes e a produção científica sendo sucateada. Por último, Soares comenta a tendência de seguir cegamente tudo o que o líder fala – por mais que seja desmentido ou os fatos venham à tona – e também sobre o racismo e a misoginia presentes nos discursos de ambos os períodos. O documentário Arquitetura da destruição é uma obra essencial para compreender o modus operandi daquele regime. Mais que isso, é uma obra pra se pensar o presente, diante de todas essas semelhanças assustadoras, por mais absurdas que sejam. A última fala do narrador é justamente essa “[Hitler] Ele transformou uma absurda ideologia em uma realidade infernal”.