Marginália

Não existe molhado igual ao pranto

O programa Marginália dessa semana apresenta uma playlist com a psicodelia brasileira dos anos 60/70.

Psicodélico, psicodelia, psicodelismo. Muitas palavras para definir o indefinível. Segundo a alquimia dos signos: “Psico” – alma, espírito, princípio pensante, atividade P mental – mais o elemento “Delo” – visível, claro, manifesto, evidente.

A psicodelia brasileira tem um quê de inenarrável, um quê de indescritível, um quê de mitológica – ora moribunda, ora extasiada. A classificação é uma tentativa racional de tentar interpretar a emoção que aquele fenômeno está te despertando. E na profundidade tudo está parado e em movimento ao mesmo tempo. E na visão intuitiva dessa arte psicodélica você já tem essa junção. Como arte”.

O psicodelismo contaminou diversas formas de expressão – na música, a brecha foi aberta pelo relâmpago tropicalista, que deixou de lado a MPB tradicional na busca por novos sons e roupagens estéticas. Como reflexos da repressão política e cultural, pipocaram por todo o país pequenos grupos de jovens preocupados em fazer música, arte livre e, sobretudo, em garantir liberdade mental suficiente para não enlouquecer de verdade naqueles anos de chumbo.

No Nordeste elas carregavam o sotaque arretado, os instrumentos regionais de percussão e a malandragem jagunça. No Sudeste,  as influências estrangeiras libertas pelo idioma nacional. No Sul uniam detalhes latino-americanos, referências gaudérias e costumes europeus. Em todos os cantos, representavam o grito de uma geração, que não aceitou ser amordaçada pelo sistema.

“Os desbundados só acreditavam no processo individual como saída, em busca do revolucionar-se; já os guerrilheiros reprimiam os sentimentos pessoais, seguindo um rígido manual de conduta que desvalorizava as questões individuais em prol do coletivo e de uma revolução social que viria. E o orgasmo ficava para depois da revolução”, escreveu Lucy Dias, em “Anos 70 – enquanto corria a barca”.

Os registros musicais daquelas viagens estão por aí até hoje, ainda que raros e caros. A democracia virtual permite que todo o universo daquela época seja explorado por quem nem pensava em nascer em meados de 70, e por quem está nascendo agora. Embora a psicodelia esteja ligada a um contexto musical, artístico e político, ela pode ser criada e recriada em um ciclo infinito. Esta é uma história que não tem fim.

Trechos do livro: Psicodelia Brasileira: Um mergulho na geração bendita. Disponível para download em AQUI!

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